Quarta-feira, 03.03.10

Inocência é não pensar

 

Quando eu era criança ( e como todas elas... ou não) acreditava que existia, a par do nosso, um mundo povoado por fadas, ostentando asas coloridas e munidas de varinhas de condão. Por momentos, fechava os olhos com toda a força e implorava que essas pequenas e delicadas criaturas viessem em meu auxílio sempre que eu me metia numa alhada: suplicava que restituissem a forma original àquela jarra que eu acabara de transformar em cacos, que pusessem como novo aquele vestido que eu rasgara, que fizessem, por mim, aqueles trabalhos de matemática que eu tanto odiava.

Não sei se a falta de irmãos explica este meu refúgio num mundo imaginário e repleto de fantasia, mas o facto é que acreditar piamente naqueles seres fantásticos me dava alguma segurança e diminuia a minha solidão, mesmo que nenhum dos meus desejos se realizasse. E, nessa altura, eu desculpabilizava as fadas, arranjando como argumento a existência de inúmeros pedidos de outras crianças que elas teriam em lista de espera e que andariam, provavelmente, a satisfazer. Só não tinha ainda chegado a minha vez. Apenas isso.

 

Mas se acreditar em fadas me colocava numa zona de conforto, o mesmo já não se passava com a famigerada ameaça do Papão. O Papão era aquela criatura temida por toda a pequenada que abominava a sopa, as hortaliças, o peixe e afins. Eu imaginava-o sempre como sendo um homenzarrão carrancudo, com voz cavernosa e inimigo de todos os petizes e que, um dia,  viria do nada e me levaria para longe dos meus pais sem me dar sequer tempo de pronunciar um "ai".

A mim, diziam-me que, caso eu não engolisse tudo o que tinha no prato, o senhor Papão viria com o enorme saco, que trazia sempre às costas, onde me enfiaria para me levar para (supunha eu) um lugar onde estavam todas as crianças que, tal como eu, não morriam de amores pela comida que lhes colocavam à frente.

O temor por aquela abominável criatura nem sempre me fez obedecer, mas desenvolveu em mim algumas artimanhas, como colocar a comida no balde do lixo, bem (mas não suficientemente) escondida e, mais tarde, despejá-la directamente pela sanita abaixo.

 

 

As fadas e o Papão assinalaram a minha ( e talvez a vossa) infância, fase da vida em que a nossa inocência justificava tudo... ou quase tudo.

 

Hoje lamento ter perdido essa inocência. Hoje dava-me jeito acreditar em fadas. Sobretudo em fadas que destruíssem todos os papões que têm a ousadia de se atravessar no nosso caminho. Hoje dava-me jeito fechar os olhos e, quando os abrisse, tudo estaria no devido lugar. Até a vida.

 

 

 

publicado por Teia d´Aranha às 21:12 | Comentar | Ver comentários (14)
Quinta-feira, 28.02.08

Asas

 

 

Voo sem rumo… sem destino…sem ponto de chegada…

Deixo-me simplesmente levar pelas minhas asas.

 

A minha pequenez ganha ainda mais expressão perante a imensidão do espaço onde me perco…

 

Sobrevoo o mundo com sofreguidão, querendo abarcar de uma só vez o sonho e o desejo, o concreto e o palpável…

Nessa minha vontade, a ténue linha entre a fantasia e o real dilui-se e faz brotar em mim a força de que precisava para não cair no vazio…

 

 

Mas o cansaço do meu voo força-me a parar…

 

 

 

Chamas por mim…

 

Pedes que me livre das asas e me aninhe em ti… Pedido feito de forma quase suplicante a que atendo… porque é essa também a minha vontade e desejo.

 

Arrumo as minhas asas … e, na forma cuidadosa  e delicada como o faço, percebes que elas só descansarão… até que me  apeteça voltar a voar…  

 

 

(Creed - Last Breathe)

 

 

Sinto-me: como um pássaro
publicado por Teia d´Aranha às 22:19 | Comentar | Ver comentários (16)

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